quinta-feira, 14 de maio de 2015

A origem da linguagem

Durante muito tempo a filosofia preocupou-se em definir a origem e as causas da linguagem. Uma primeira divergência sobre o assunto surgiu na Grécia: a linguagem é natural aos homens ou é uma convenção social? Se a linguagem for natural, as palavras possuem um sentido próprio e necessário; se for convencional, são decisões consensuais da sociedade e, nesse caso, são arbitrárias.
Esse discurso levou, séculos mais tarde, à seguinte conclusão: a linguagem como capacidade de expressão dos seres humanos é natural, isto é, os humanos nascem com uma aparelhagem física, anatômica e fisiológica que lhes permite expressarem-se pela palavra; no entanto, as línguas são convencionais, isto é, surgem de condições históricas, geográficas, econômicas e políticas determinadas, são fatos culturais.
Uma vez constituída uma língua, ela se torna uma estrutura ou um sistema dotado de necessidade interna e passa a funcionar como se fosse algo natural, com leis e princípios próprios, independentes dos sujeitos que a empregam.
Perguntar pela origem da linguagem levou a quatro tipos de respostas:
1. a linguagem nasce por imitação: os humanos imitam, pela voz, os sons da natureza. A origem da linguagem seria, portanto, onomatopeia;
2. a linguagem nasce por imitação dos gestos: nasce como uma espécie de pantomima ou encenação, na qual o gesto indica um sentido. Pouco a pouco o gesto passou a se acompanhar de sons, e estes foram se tornando palavras;
3. a linguagem nasce da necessidade: a fome, a sede, a necessidade de se abrigar e se proteger, a necessidade de se reunir em grupo para se defender das intempéries, dos animais e de outros homens mais fortes levaram à criação de palavras. Com isso, formou-se um vocabulário elementar e rudimentar que, gradativamente, tornou-se mais complexo e transformou-se numa língua;
4. a linguagem nasce das emoções, particularmente do grito (medo, surpresa ou alegria), do choro (dor, medo, compaixão) e do riso (prazer, bem-estar, felicidade). Citando Rousseau: "Não é a fome ou a sede, mas o amor ou o ódio, a piedade, a cólera, que aos primeiros homens lhes arrancaram as primeiras vozes... Eis por que as primeiras línguas foram cantantes e apaixonadas antes de serem simples e metódicas".
Assim, para Rousseau, a linguagem, por nascer das paixões, foi antes linguagem figurada e por isso surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa muito depois; e as vogais nasceram antes das consoantes. Assim como a pintura nasceu antes da escrita, também os homens primeiro cantaram seus sentimentos e só muito depois exprimiram seus pensamentos.
Essas teorias não são excludentes. É muito possível que a linguagem tenha nascido de todas essas fontes ou modos de expressão, e os estudos de psicologia genética mostram que uma criança se vale de todos esses meios para começar a se exprimir.



Bacon e Descartes e o conhecimento verdadeiro

Se os gregos indagaram: "Como o erro é possível?", os modernos perguntaram: "Como a verdade é possível?", pois buscavam compreender e explicar como nossas ideias correspondem ao que se passa verdadeiramente na realidade. Apesar dessas diferenças, os modernos retomaram o modo de operar proposto por Sócrates, Platão e Aristóteles, que é o de começar pelo exame das opiniões contrárias e ilusórias para ultrapassá-las em direção à verdade.
Antes de abordar o conhecimento verdadeiro, Bacon e Descartes examinaram exaustivamente as causas e as formas do erro, inaugurando um estilo filosófico que permanecerá na filosofia: a análise das causas e formas dos nossos preconceitos.
Bacon elaborou uma teoria conhecida como crítica dos ídolos. De acordo com ela, existem quatro tipos de ídolos ou de imagens que formam opiniões cristalizadas que impedem o conhecimento da verdade:
1. ídolos da caverna (uma referência ao Mito da Caverna): as opiniões que se formam em nós por erros e defeitos dos órgãos dos sentidos. São os mais fáceis de serem corrigidos pelo nosso intelecto;
2. ídolos do fórum (o fórum era o lugar das discussões e dos debates públicos na Roma antiga): são as opiniões que se formam em nós como consequência da linguagem e de nossas relações como os outros. São difíceis de serem vencidos, mas o intelecto tem poder sobre eles;
3. ídolos do teatro (o teatro é o lugar em que ficamos passivos, onde somos apenas espectadores e receptores de mensagens): são as opiniões formadas em nós em decorrência dos poderes das autoridades, que nos impõem seus pontos de vista e os transformam em leis inquestionáveis. Só podem ser desfeitos se houver uma mudança social e política;
4. ídolos da tribo (a tribo é um agrupamento humano em que todos possuem a mesma origem, o mesmo destino, as mesmas características e os mesmos comportamentos): são as opiniões que se formam em nós em decorrência da natureza humana. São próprios da espécie humana e só podem ser vencidos se houver uma reforma da própria natureza humana.
A demolição dos ídolos é, portanto, uma reforma do intelecto, dos conhecimentos e da sociedade. Para a reforma dos dois primeiros, Bacon propõe um método, definido como o modo seguro de aplicar o pensamento lógico aos dados oferecidos pelo conhecimento sensível. O método deve tornar possível:
. organizar e controlar esses dados, graças a procedimentos adequados de observação e de experimentação;
. organizar e controlar os resultados observacionais e experimentais para chegar a conhecimentos novos ou à formulação de teorias verdadeiras;
. desenvolver procedimentos adequados à aplicação prática dos resultados teóricos, pois para ele o homem é "ministro da natureza" e, se souber conhecê-la (obedecer-lhe, diz Bacon), poderá comandá-la. O método, afirma Bacon, é o modo seguro e certo de "aplicar a razão à experiência", isto é, de aplicar o pensamento verdadeiro aos dados oferecidos pelo conhecimento sensível.
Bacon acreditava que o avanço dos conhecimentos e das técnicas, as mudanças sociais e políticas e o desenvolvimento das ciências e da filosofia propiciariam uma grande reforma do conhecimento humano, que seria também uma grande reforma da vida humana.
Por sua vez, Descartes localizava a origem do erro em duas atitudes, que chamou atitudes infantis ou preconceitos de infância:
1. a prevenção, que é a facilidade com que nosso espírito se deixa levar pelas opiniões e ideias alheias, sem se preocupar em verificar se elas são ou não verdadeiras. São as opiniões que se cristalizam em nós na forma de preconceitos e que escravizam nosso pensamento, impedindo-nos de pensar e de investigar;
2. a precipitação, que é a facilidade e a velocidade com que nossa vontade nos faz emitir juízos sobre as coisas antes de verificarmos se nossas ideias são verdadeiras ou não. São opiniões que emitimos em consequência de nossa vontade ser mais forte  e poderosa que nosso intelecto.
Essas duas atitudes indicam que, para Descartes, o erro situa-se no conhecimento sensível (sensação, percepção, imaginação, memória e linguagem), de maneira que o conhecimento verdadeiro é puramente intelectual e parte de ideias inatas (isto é, verdades que existem em nossa alma desde nosso nascimento) ou de observações inteiramente controladas pelo pensamento.
Tal como Bacon, Descartes está convencido de que é possível vencer os defeitos no conhecimento por meio de uma reforma do entendimento e das ciências, diferentemente de Bacon, porém, Descartes não vê a necessidade de mudanças sociais e políticas.
Com Descartes tem início propriamente a filosofia moderna, pois é ele o primeiro a propor a figura do sujeito do conhecimento verdadeiro, quando a primeira verdade que escapa da dúvida é pronunciada: "penso, logo, existo".
A reforma proposta por Descartes deve ser feita pelo sujeito do conhecimento quando este compreende a necessidade de encontrar fundamentos seguros para o saber e, para tanto, instituir um método.
Os objetivos principais do método são:
. assegurar a reforma do intelecto para que este siga o caminho seguro da verdade (afastar a prevenção e a precipitação);
. oferecer procedimentos pelos quais a razão possa controlar-se a si mesma durante o processo de conhecimento, sabendo que caminho percorrer;
propiciar a ampliação ou o aumento dos conhecimentos graças a procedimentos seguros que permitam passar do já conhecido ao desconhecido;
oferecer os meios para que os novos conhecimentos possam ser aplicados, pois o saber deve "tornar o homem senhor e possuidor da natureza", no dizer de Descartes.
Método: regras certas, fáceis e amplas
Por que o método se torna necessário? Feitas as críticas à autoridade das escolas e dos livros, da tradição e dos preconceitos, o sujeito do conhecimento descobre-se como uma consciência que parece não poder contar com o auxílio do mundo para guiá-lo. Desconfia dos conhecimentos sensíveis e dos conhecimentos herdados. Está só, conta apenas com seu próprio pensamento. Sua solidão torna indispensável um método que possa guiar o pensamento em direção aos conhecimentos verdadeiros, ao passo que os distingue dos falsos. Eis por que Descartes escreve Discurso do método e regras para a direção do espírito.
O filósofo define o método como um conjunto de regras cujas características principais são três:
1. certas (o método dá segurança ao pensamento);
2. fáceis (o método evita complicações e esforços inúteis);
3. amplas (o método deve permitir que se alcancem todos os conhecimentos possíveis para o entendimento humano).
Descartes elabora quatro grandes regras do método:
1. regra da evidência: só admitir como verdadeiro um conhecimento evidente, isto é, no qual e sobre o qual não caiba a menor dúvida. Para isso, Descartes criou um procedimento, a dúvida metódica;
2. regra da divisão> para conhecermos realidades complexas precisamos dividir as dificuldades e os problemas e em suas parcelas mais simples, examinando cada uma delas em conformidade com a regra da evidência;
3. regra da ordem: os pensamentos devem ser ordenados em séries que vão dos mais simples aos mais complexos, dos mais fáceis aos mais difíceis, pois a ordem consiste em distribuir os conhecimentos de maneira que passemos do conhecido ao desconhecido;
4. regra da enumeração: a cada conhecimento novo obtido, deve-se fazer a revisão completa dos passos dados, dos resultados parciais e dos encadeamentos que permitiram chegar ao novo conhecimento. 
  

terça-feira, 12 de maio de 2015

Inteligência e pensamento

A inteligência colhe, recolhe e reúne os dados oferecidos pela percepção, imaginação, memória e linguagem, formando redes de significações com as quais organizamos, ordenamos e damos sentido a nosso mundo e nossa vida. O pensamento, porém, vai além do trabalho da inteligência: abstrai (ou seja, separa) os dados das condições imediatas de nossa experiência e os elabora na forma de conceitos, ideias e juízos, estabelecendo articulações internas e necessárias entre eles pelo raciocínio (indução e dedução), pela análise e pela síntese. Formula teorias, procura prová-las e verificá-las, pois está voltado para a verdade do conhecimento.
Um conceito ou uma ideia é uma rede de significações que nos oferece:
. o sentido interno e essencial daquilo a que se refere;
. os nexos causais ou as relações necessárias entre seus elementos, de sorte que por eles conhecemos a origem, os princípios, as consequências, as causas e os efeitos daquilo a que se refere.
O conceito ou ideia nos oferece a essência-significação necessária de alguma coisa, sua origem ou causa, suas consequências, ou seus efeitos, seu modo de ser e de agir.
O pensamento expressa os nexos ou ligações dessas redes de significações por meio dos juízos, pelos quais estabelecemos os elos internos e necessários entre um ser e suas qualidades, propriedades e atributos, assim como entre o ser e aqueles predicados que lhe são acidentais e que podem ser retirados sem que isso afete seu sentido e sua realidade.
Um conjunto de juízos constitui uma teoria quando:
. estabelecem-se com clareza um campo de objetos e os procedimentos para conhecê-los e enunciá-los;
. organizam-se e ordenam-se os conceitos;
. articulam-se e demonstram-se os juízos, verificando seu acordo com regras e princípios de racionalidade e demonstração.
Teoria é explicação, descrição e interpretação geral das causas, formas, modalidades  e relações de um campo de objetos, conhecidos graças a procedimentos específicos, próprios da natureza dos objetos investigados.
O pensamento elabora teorias, ou seja, uma explicação ou interpretação intelectual de um conjunto de fenômenos e significações. Por isso falamos em teoria da relatividade, teoria genética, teoria psicanalítica, etc.
Uma teoria pode ou não nascer diretamente de uma prática e ter ou não uma aplicação prática direta, mas não é a prática que permite determinar a verdade ou falsidade teórica, e sim critérios internos à própria teoria. A prática orienta o trabalho teórico e verifica suas conclusões, mas não determina sua verdade ou falsidade.
O pensamento propõe e elabora teorias e cria métodos.
O método como regulador do pensamento: Usar um método é seguir regular e ordenadamente um caminho por meio do qual um objetivo é alcançado. No caso do conhecimento, é o caminho ordenado que o pensamento segue por meio de um conjunto de regras e procedimentos racionais, com três finalidades:
. conduzir à descoberta de uma verdade até então desconhecida;
. permitir a demonstração e a prova de uma verdade já conhecida;
. permitir a verificação de conhecimento para averiguar se são ou não verdadeiros.
O método é, portanto, um instrumento racional para adquirir, demonstrar ou verificar conhecimentos. Nas várias formulações que recebeu no correr da história da filosofia e das ciências, sempre teve o papel de um regulador do pensamento, isto é, de verificador e avaliador das ideias e teorias: guia o trabalho intelectual e avalia os resultados obtidos.
Desde Aristóteles, a filosofia considera que, ao lado de um método geral que todo e qualquer conhecimento deve seguir, outros métodos particulares são necessários, adequados à especificidade do objeto a ser conhecido. Dessa maneira, são diferentes entre si os métodos da geometria e da física, da biologia e da sociologia, e assim por diante.
É interessante notar, todavia, que, em certos períodos da história da filosofia e das ciências, chegou-se a pensar num método único para todos os campos do conhecimento. Assim, Galileu julgou que o método matemático deveria ser usado em todos os conhecimentos da natureza, pois dizia ele, "a natureza é um livro escrito em caracteres matemáticos".
Descartes, indo mais longe do que Galileu, julgou que um só método deveria ser empregado pela filosofia e por todas as ciências, uma mathesis universalis, ou o conhecimento da ordem necessária das ideias, válida para todos os objetos de conhecimento. Conhecer seria ordenar e encadear em nexos contínuos as ideias referentes a um objeto, e tal procedimento deveria ser o mesmo em todos os conhecimentos porque esse é o modo próprio do pensamento, seja qual for o objeto a ser conhecido.
Os filósofos e cientistas do fim do século XIX também afirmavam que um único método deveria ser seguido.Entusiasmados com o desenvolvimento da física, julgaram que todos os campos do saber deveriam empregar o método usado pela "ciência da natureza", mesmo quando o objeto fosse o homem. Agora, não era tanto o conceito de ordenamento interno das ideias que levava à defesa de um único método de conhecimento, mas o da causalidade ou da explicação causal de todos os fatos, fossem eles naturais, fossem humanos.
Cada campo com seu método: No século XX, porém, sobretudo com a fenomenologia de Husserl e com  a corrente do pensamento conhecida como estruturalismo, passou-se a considerar que cada campo do conhecimento deve ter seu método próprio. Este é determinado pela natureza do objeto, pela forma como o sujeito do conhecimento pode aproximar-se desse objeto e pelo conceito de verdade que cada esfera do conhecimento define para si própria.
Assim, por exemplo, considera-se o método matemático (dedutivo) próprio para objetos que existem apenas idealmente e que são construídos inteiramente pelo nosso pensamento. Ao contrário, o método experimental (indutivo) é próprio das ciências naturais, que observam seus objetos e realizam experimentos.
Já as ciências humanas têm métodos de compreensão e de interpretação do sentido das ações, das práticas, dos comportamentos, das instituições sociais e políticas, dos sentimentos, dos desejos, das transformações históricas, pois o homem, objeto dessas ciências, é um ser histórico-cultural que produz as instituições e o sentido delas. Tal é o que precisa ser conhecido.
No caso das ciências exatas (as matemáticas), o método dedutivo também chamado axiomático, porque o conhecimento parte de um conjunto de termos primitivos e de axiomas indemonstráveis que baseiam a construção e demonstração nos objetos.
No caso das ciências naturais, o método indutivo também é chamado experimental e hipotético. Experimental porque se baseia em observações e experimentos; hipotético porque os cientistas partem de hipóteses sobre os objetos que guiam os experimentos e a avaliação dos resultados.
No caso das ciências humanas, o método é chamado compreensivo-interpretativo, porque seu objeto são as significações ou os sentidos dos comportamentos, práticas e instituições produzidas pelos seres humanos.
Atualmente, quatro traços são comuns aos diferentes métodos filosóficos:
1. o método é reflexivo - parte da autoanálise ou do autoconhecimento do pensamento;
2. é crítico - investiga os fundamentos e as condições da possibilidade do conhecimento verdadeiro, da ação ética, da criação artística e da atividade política;
3. é descritivo - descreve as estruturas internas ou essências de cada campo de objetos do conhecimento e das formas de ação humana;
4. é interpretativo - busca as formas da linguagem e as significações ou os sentidos dos objetos, dos fatos, das práticas e das instituições, suas origens e transformações.

Sensação e percepção

O conhecimento empírico ou sensível também é chamado experiência sensível, e suas formas principais são a sensação e a percepção.
A sensação é o que nos dá as qualidades exteriores e interiores dos objetos e os efeitos internos dessas qualidades sobre nós. Na sensação sentimos o quente e o frio, provamos o doce e o amargo, tocamos o liso e o rugoso, vemos o roxo e o verde, ouvimos o barulho e o silêncio. Sentimos também qualidades internas, que se passam em nosso corpo ou em nossa mente pelo contato com as coisas sensíveis: prazer, dor, desagrado.
Sentir é algo ambíguo, pois o sensível é, ao mesmo tempo, a qualidade que está no objeto externo e o sentimento que nosso corpo possui das qualidades sentidas. Por isso a tradição costuma dizer que a sensação é uma reação corporal imediata a um estímulo externo, sem que seja possível distinguir o estímulo exterior do sentimento interior. 
Ninguém diz que sente o quente, vê o azul e engole o amargo, dizemos que a água está quente, que céu é azul e que o alimento está amargo. Além disso, quando, por exemplo, percebemos a água, não percebemos apenas sua temperatura, mas também sua transparência, sua vulnerabilidade, isto é, várias de suas características. Mesmo se fizermos referência a apenas uma qualidade, outras sensações estarão presentes. Por isso se diz que, na realidade, não temos uma sensação isolada de outras, e sim sensações como reunião ou síntese de várias sensações.
Empirismo e intelectualismo: Duas grandes concepções sobre a sensação e a percepção fazem parte da tradição filosófica: a empirista e a intelectualista.
Para os empiristas, a sensação e a percepção são causadas pela relação entre estímulos externos e o cérebro. Depois que esses estímulos agem sobre nossos sentidos e sobre o nosso sistema nervoso, nosso cérebro envia uma resposta que percorre nosso sistema nervoso até chegar aos nossos sentidos na forma de uma sensação (uma cor,um sabor, um odor) ou de uma associação de sensações numa percepção (vejo um objeto vermelho, sinto o sabor de uma carne, sinto o cheiro da rosa, etc.).
Para um empirista, a sensação é pontual: um ponto do objeto externo toca um de meus órgãos dos sentidos e faz um percurso no interior do meu corpo, indo ao cérebro e voltando às extremidades sensoriais. Cada sensação é independente das outras, cabendo à percepção unificá-las e organizá-las numa síntese.
A causa do conhecimento sensível é a coisa externa, de modo que a sensação e a percepção são efeitos passivos de uma atividade dos corpos exteriores sobre o nosso corpo. O conhecimento é obtido por soma e associação das sensações na percepção, num processo que depende da frequência, da repetição e da sucessão dos estímulos externos e de nossos hábitos.
Para os intelectualistas, a sensação e a percepção dependem do sujeito do conhecimento, e a coisa exterior é apenas a ocasião para que tenhamos a sensação ou a percepção. Nesse caso, o sujeito é ativo e a coisa externa é passiva, ou seja, sentir e perceber são fenômenos que dependem da capacidade do sujeito para decompor um objeto em suas qualidades simples (a sensação) e recompô-lo, dando-lhe organização e significação (a percepção). A passagem da sensação para a percepção é, aqui, realizada pelo intelecto do sujeito do conhecimento.
Psicologia da forma e Fenomenologia: No século XX, porém, a filosofia alterou bastante essas duas tradições e as superou numa nova concepção do conhecimento sensível. As mudanças foram trazidas pela fenomenologia de Edmund Husserl pela psicologia da forma ou teoria da gestalt.
Ambas mostraram:
.contra o empirismo: que a sensação não é uma resposta físico-fisiológica pontual, a um estímulo externo também pontual;
.contra o intelectualismo: que a percepção não é uma atividade de síntese das sensações realizada pelo pensamento;
.contra o empirismo e o intelectualismo: que não há diferença entre sensação e percepção.
Empiristas e intelectualistas, apesar de suas diferenças, concordavam que a sensação era uma relação de causa e efeito entre pontos das coisas e pontos do nosso corpo. As coisas seriam como mosaicos de qualidades isoladas, e nosso aparelho sensorial também seria um mosaico de receptores isolados. Por isso a percepção era considerada a atividade que "juntava" as partes numa síntese que seria o objeto percebido.
Fenomenologia e gestalt, porém, mostram que não há diferença entre sensação e percepção porque nunca temos sensações parciais, pontuais ou elementares, que depois o espírito organizaria como percepção de um único objeto. Sentimos e percebemos formas, totalidades estruturadas dotadas de sentido ou de significação.
Assim, por exemplo, ter a sensação e a percepção de um cavalo é sentir/perceber de uma só vez sua cor, suas partes, sua face, seu lombo, sua crina e seu rabo, seu porte, seu cheiro, seus ruídos, seus movimentos. O cavalo-percebido não é um feixe de qualidades isoladas que enviam estímulos aos meus órgãos dos sentidos (como suporia o empirista) nem um objeto esperando que meu pensamento diga às minhas sensações "Esta coisa é um cavalo" (como suporia o intelectualista). O cavalo-percebido não é um mosaico de estímulos (empirismo) nem uma ideia (intelectualismo), mas é, exatamente, uma cavalo-percebido.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Karl Marx e os conceitos de ideologia e modo de produção.

Modos de produção: A variação das condições materiais de uma sociedade constitui a história dessa sociedade, e Marx as designou modos de produção. Ele os define com base em três fatores principais: a forma da propriedade ou os meios de produção;a divisão social das classes e as relações sociais de produção.
A história é a mudança ou transformação de um modo de produção para outro. Tal mudança não se realiza por acaso nem por vontade livre dos seres humanos, mas de acordo com as condições econômicas, sociais e culturais já estabelecidas, que podem ser alteradas graças à práxis humana diante de tais condições. Essa constatação levou Marx a afirmar que "os homens fazem a história, mas o fazem em condições determinadas", isto é, que não foram escolhidas por eles. Também por isso ele disse: "os homens fazem a história, mas não sabem que a fazem".
Estamos aqui, diante de uma situação coletiva muito parecida com a que encontramos em nossa vida psíquica individual. Assim como julgamos que nossa consciência sabe e pode tudo, faz o que pensa e quer, mas na realidade, está determinada pelo inconsciente e ignora isso, também na existência social os seres humanos julgam que sabem o que é a sociedade. Dizem que Deus ou a natureza a criaram, instituíram a política e a história, e que os homens são seus instrumentos; ou, então, acreditam que fazem o que fazem e pensam o que pensam porque são livres e têm poder para mudar o curso das coisas como e quando quiserem.
Por exemplo, quando alguém diz que uma pessoa é pobre porque quer, porque é preguiçosa, ou perdulária, ou ignorante, está imaginando que somos o que somos somente por nossa vontade, como se a organização e a estrutura da sociedade, da economia, da política não tivesse nenhum peso sobre nossa vida.
A mesma coisa acontece quando alguém diz ser pobre "pela vontade de Deus", e não por causa das condições concretas em que vive. Ou quando faz uma afirmação racista, segundo a qual "a natureza fez alguns superiores e outros inferiores".
A alienação social é o desconhecimento das condições histórico-sociais em que vivemos e que são produzidas pela ação humana sob o peso de outras condições históricas anteriores e determinadas. Há uma dupla alienação: ao mesmo tempo que não se reconhecem como agentes e autores da vida social com suas instituições, os seres humanos julgam-se indivíduos plenamente livres.
No primeiro caso, não percebem que instituem a sociedade; no segundo caso, ignoram que a sociedade instituída determina seus pensamentos e ações.
A partir do fenômeno da alienação, podemos compreender o fenômeno da ideologia.

A ideologia: A alienação social se exprime numa "teoria" do conhecimento espontânea, formando o senso comum da sociedade. Por seu intermédio, são imaginadas explicações e justificativas para a realidade tal como é diretamente percebida e vivida.
Um exemplo desse senso comum aparece no caso das "explicações" da pobreza. Esse senso comum social é o resultado de uma elaboração intelectual sobre a realidade, feita pelos pensadores ou intelectuais, que descrevem e explicam o mundo pelo ponto de vista da classe dominante de sua sociedade. Essa elaboração intelectual incorporada pelo senso comum social é a ideologia. Por meio dela, o ponto de vista, as opiniões e as ideias de uma das classes sociais, a dominante e dirigente, tornam-se o ponto de vista e a opinião de todas as classes e de toda a sociedade.
A função principal da ideologia é ocultar e dissimular as divisões sociais e políticas, dando-lhes a aparência de indivisão social e de diferenças naturais entre os seres humanos.
Apesar da divisão social das classes, somos levados a crer que somos todos iguais porque participamos da ideia de "humanidade", ou da ideia de "nação" e "pátria", ou da ideia de "raça", etc. Somos levados a crer que as desigualdades sociais, econômicas e políticas não são produzidas pela divisão social das classes, mas por diferenças individuais dos talentos e das capacidade, da inteligência, da força de vontade, entre outros fatores.
A produção ideológica da ilusão social tem como finalidade fazer com que todas as classes sociais aceitem as condições em que vivem, julgando-as naturais, normais, corretas, justas, sem levar em conta que há uma contradição profunda entre as condições reais em que vivemos e as ideias.
Por exemplo, a ideologia afirma que somos todos cidadãos e, portanto, temos todos os mesmos direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. No entanto, isso não acontece de fato. A maioria, porém, acredita que o fato de ser eleitor, pagar as dívidas e contribuir com os impostos já nos faz cidadãos, sem considerar ascondições concretas que fazem alguns seres mas "cidadãos" do que outros.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Como Hegel pensa a razão (espírito absoluto)

No século XIX, o filósofo alemão Hegel ofereceu outra solução para o problema do inatismo e do empirismo. A todas as concepções filosóficas que o antecederam, ele endereçou uma crítica de não terem compreendido algo fundamental: a razão é histórica.
De fato, a filosofia, preocupada em garantir a diferença entre mera opinião e a verdade, considerou que as ideias só seriam racionais e verdadeiras se fossem intemporais, perenes, as mesmas em todo tempo e em todo lugar. Uma verdade que não respeitasse essas condições seria mera opinião, seria enganosa, não seria verdade. A razão, sendo a fonte e a condição da verdade, teria também de ser intemporal
É essa intemporalidade atribuída à razão que Hegel criticou em toda a filosofia anterior. Ao afirmar que a razão é histórica, ele não está, de modo algum, dizendo que a razão é algo relativo, que vale hoje e não vale amanhã, que serve aqui e não serve ali, que cada época não alcança verdades universais. O que Hegel está dizendo é que a mudança, a transformação da razão e de seus conteúdos é obra racional da própria razão. A razão não é uma vítima do tempo, que lhe roubaria a verdade, a universalidade, a necessidade. A razão não está na história; ela é a história. A razão não está no tempo; ela é o tempo. Ela dá sentido ao tempo.
Hegel também fez uma crítica aos inatistas e aos empiristas muito semelhante à que Kant fizera.
Kant estava certo quando disse que os inatistas e empiristas se enganaram por excesso de objetivismo, isto é, por julgarem que o conhecimento racional dependeria inteiramente dos objetos do conhecimento, seja devido a experiência, seja devido à capacidade das ideias para reproduzir a realidade em si das coisas.
Mas Kant também se enganou porque não foi capaz de compreender que a razão é sujeito e objeto. Ou seja, mesmo afirmando que a razão não conhece a realidade em si, mas  apenas a realidade fenomênica, Kant ainda admitia a existência de uma realidade, isto é, que o real é a obra histórica da razão.
A razão, diz Hegel, não é exclusivamente razão objetiva (para a qual a verdade está nos objetos) nem exclusivamente subjetiva (para a qual a verdade está no sujeito), mas ela é a unidade necessária do objetivo e do subjetivo. Ela é o conhecimento da harmonia entre as coisas e as ideias, entre o objeto e o sujeito, entre a verdade objetiva e a verdade subjetiva.
O que é, afinal, a razão para Hegel? Para ele, a razão é:
1. o conjunto das leis do pensamento, isto é, os princípios, os procedimentos do raciocínio, as formas e as estruturas necessárias para pensar as categorias, as ideias - é razão subjetiva;
2. a ordem, a organização, o encadeamento e as relações das próprias coisas, isto é, a realidade objetiva e racional - é razão objetiva;
3. a relação interna e necessária entre as leis do pensamento e as leis do real. Ela é a unidade da razão subjetiva e da razão objetiva. A essa unidade, Hegel dá o nome espírito absoluto.

O ser humano produz a si mesmo, mas também se perde de si mesmo (Karl Marx)

No século XIX, o filósofo alemão Karl Marx integrou as visões de natureza humana e condição humana. Cada uma delas, se tomada isoladamente, não permite conhecer melhor o ser humano.
A obra de Marx nos permite dar um novo sentido a essas expressões. Por natureza humana, entende-se aquilo de propriamente humano que é identificável em cada indivíduo. Leva-se em consideração, assim, os aspectos biológicos, anatômicos, fisiológicos e psicológicos e afirma-se que eles se expressam no aspecto material da vida cotidiana. Distingue-se entre uma "natureza humana geral", que são os aspectos invariáveis em toda a humanidade, e uma natureza humana modificada de cada época histórica", constituída pelos aspectos particulares de cada cultura e de cada sociedade em um período histórico específico.
Para Marx, o ser humano muda ao longo da história e, no entanto, permanece o mesmo. Isso porque ele considera que o ser humano constrói-se a si mesmo por meio do trabalho e, conforme se constrói, se modifica. A construção é feita a partir de uma espécie de "matéria-prima" que é o próprio ser humano, e isso permanece sempre o mesmo. Daí a possibilidade de falar em uma natureza humana. Mas ao trabalhar e transformar a natureza, o homem se modifica e é, por isso que, segundo Marx, é o trabalho que faz com que o ser humano seja propriamente humano.
Em outras palavras, para Marx os seres humanos produzem a si mesmos por meio do trabalho. O trabalho é, portanto, fonte de humanidade, de humanização.
Por condição humana, no texto de Marx (Manuscritos econômico-filosóficos), entende-se a situação concreta vivida por homens e mulheres, bem como as características que eles assumem em cada momento histórico. Na sociedade capitalista do século XIX, Marx afirmava que a condição humana era a alienação no processo do trabalho, ou o trabalho alienado.
Marx denominava trabalho alienado aquele que acontece no capitalismo industrial, em que, devido à divisão de funções entre os trabalhadores, cada trabalhador não conhece o processo geral do trabalho. Ele não tem condições de compreender como atividade que ele realiza se encaixa no processo de produção. Outro aspecto é que aquilo que o trabalhador produz não pertence a ele, mas ao dono da fábrica. Esse aspecto é essencial, pois revela o fundamento da alienação: a apropriação privada da produção da riqueza humana. Assim, o trabalho perde sua "humanidade" no processo do trabalho, uma vez que ele coloca parte de sua vida naquilo que produz e que não pertence a ele. Ele próprio, desse modo, é transformado em um objeto, em uma coisa. Em sua obra de maturidade, como em "O capital", Marx denominará esse processo de "reificação", partindo da palavra latina para 'coisa', que é res.
O trabalho passa a ser, então, um processo de "coisificação" do trabalhador, perde a possibilidade de ser criativo e deixa de ser um processo de transformação da natureza e construção do humano, convertendo-se em um processo mecânico e repetitivo. O trabalho já não é aquilo que faz o ser humano plenamente humano, tornando-o um animal como qualquer outro.
Segundo Marx, se a própria humanidade produziu a desumanizante condição humana do capitalismo, os próprios seres humanos devem transformar essa condição, superando o trabalho alienado por meio da abolição da propriedade privada dos meios de produção. Somente assim, será possível retornar ao processo de autoconstrução do humano, para a criação coletiva e histórica daquilo que chamamos "natureza humana" e que os seres humanos produzem cotidianamente nas suas relações consigo mesmos, com os outros e com o mundo.