sexta-feira, 5 de junho de 2015

Temas para a atividade dos primeiros anos do Ensino Médio.

Pesquisa sobre algum filósofo: o filósofo escolhido por mim foi Aristóteles e, o resumo de sua vida e obra está organizado da seguinte forma:
1. Quando e onde viveu? Quais foram os fatos mais marcantes da sua vida?
O filósofo Aristóteles nasceu em 384 a.C., na cidade de Estagira, e morreu em 322 a.C., seus pensamentos filosóficos e ideias sobre a humanidade tem influências significativas na educação e no pensamento ocidental contemporâneo. Aristóteles é considerado o criador do pensamento lógico. Suas obras influenciaram também na teologia medieval da cristandade.
2. Ele se inspirou em quem? E influenciou que?
Aristóteles foi viver em Atenas aos 17 anos, onde conheceu Platão, tornando-se seu discípulo. Passou o ano de 343 a.C., como preceptor do imperador Alexandre, o Grande, da Macedônia. Fundou em Atenas, no ano 335 a.C., a escola Liceu, voltada para o estudo das ciências naturais. Seus estudos filosóficos baseavam-se em experimentações para comprovar fenômenos da natureza. Influenciou durante a Idade Média o filósofo e padre da Igreja Tomás de Aquino.
3. O que ele pensou sobre Ética?
Discorda da ideia platônica que via as paixões humanas como negativas e que precisavam ser controladas pela razão. Para ele, as paixões humanas não são nem boas e nem ruins. Ruim é quando as paixões são viciosas, isto é, quando estão em excesso ou falta. Aristóteles pensa que a virtude é encontrar uma justa medida entre o excesso e a falta das paixões.
. O que ele pensou sobre a Política?
Se preocupou menos com hipóteses de uma cidade ideal e mais com um estudo dos sistemas políticos e leis existentes em sua época. Assim, diferente de Platão, que teorizou uma cidade ideal, Aristóteles pensou uma sociedade que não fosse nem totalmente democrática e nem totalmente aristocrática: a política permitiria que os conflitos entre ricos e pobres pudessem ser amenizados.
. O que ele pensou sobre Teoria do Conhecimento?
Sua metafísica, discorre sobre princípios que garantam a realidade das coisas, como os princípios de identidade, não contradição e terceiro excluído. Além dos princípios, Aristóteles aponta quatro causas e algumas categorias que possibilitam o conhecimento humano: as causa material, formal, eficiente e final e, as seguintes categorias: substância, qualidade, quantidade, relação, ação, passividade, tempo, posse, posição e onde (lugar).
. Além dessas informações, você encontrou alguma outra curiosidade a respeito da vida dele?
Apesar de existirem diversos escritos de Aristóteles, muito do que ele escreveu se perdeu. Foi a partir de alguns fragmentos de seus escritos que sua obra foi organizada. Foram juntados textos por assunto para compor o corpo de seus escritos. É certo que a forma de compreender e juntar seus escritos tem sido debatida por estudiosos.
Algumas Áreas da Filosofia 
. Política: é a investigação filosófica sobre a qual é o melhor governo, o que é justiça e como deve ser o comportamento das pessoas em suas relações de convivência.
. Ética: é uma investigação sobre os princípios que motivam, justificam ou orientam as ações humanas, refletindo sobre os fundamentos dos valores sociais e historicamente construídos.
. Estética: é o estudo dos critérios e problemas sobre processos de criação artística. Problematiza os valores estéticos e as relações entre forma e conteúdo, bem como a importância da arte para as sociedades humanas.
. Filosofia da História: é uma área de investigação da Filosofia que se preocupa com a relação dos homens com o tempo, com seus processos culturais e sociais. Além disso, preocupa-se com o significado do desenvolvimento das sociedades e da racionalidade.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Ética ou Filosofia Moral

Os costumes são anteriores ao nosso nascimento e formam o tecido da sociedade em que vivemos, de modo que em geral acabam sendo considerados inquestionáveis e naturais, existentes por si mesmos. Mas não só isso. Para assegurar o aspecto obrigatório desses costumes, que não pode ser transgredido, muitas sociedades tendem a sacralizá-los, ou seja, as religiões os concedem ordenados pelos deuses, na origem dos tempos.
A ética como disciplina filosófica ou filosofia moral nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes. Ao nascer, ela também busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, as características pessoais de cada indivíduo é capaz de praticar, o que se refere, portanto, ao senso moral e à consciência moral individuais.
Podemos dizer, com base nos textos de Platão e de Aristóteles, que, no Ocidente, a ética ou filosofia moral inicia-se com Sócrates.
Sócrates, o incansável perguntador 
Contam Platão e Aristóteles que, nas praças e ruas de Atenas, Sócrates perguntava às pessoas o que eram os valores pelos quais se orientavam ao agir. Ao fim, suas perguntas revelavam sempre que os atenienses respondiam sem pensar no que diziam, repetindo o que lhes fora ensinado desde a infância.
Como cada um havia interpretado à sua maneira o que aprendera, era comum que uma pergunta recebesse respostas diferentes e contraditórias. Após certo tempo de conversa, o interlocutor ou se zangava com a impertinência de Sócrates e ia embora irritado, ou reconhecia que não sabia o que imaginava saber, dispondo-se a buscar, com o filósofo, a virtude e o bem.
Sócrates embaraçava os atenienses porque os forçava a indagar não apenas qual o sentido dos costumes estabelecidos (os valores éticos ou morais da coletividade, transmitidos de geração em geração), mas também quais as disposições de caráter (características pessoais, sentimentos, atitudes, condutas individuais) que levavam alguém a respeitar ou não os valores da cidade, e por quê.
Ao indagar o que são a virtude e o bem, Sócrates realiza, na verdade, duas interrogações. Por um lado, interroga a sociedade para saber se ao que ela costuma considerar virtuoso e bem corresponde efetivamente à virtude e ao bem; por outro, interroga os indivíduos para saber se têm efetivamente consciência do significado e da finalidade de suas ações, se seu caráter ou sua índole são virtuosos e bons realmente. A indagação ética socrática dirige-se, portanto, à sociedade e ao indivíduo.
Moral e ética: Moral deriva do latim mos, moris, enquanto ética origina-se do grego éthos. Moral e ética referem-se ao conjunto de costumes de uma sociedade, considerados como valores e obrigações para seus membros. No entanto, há na língua grega outra palavra que, ao ser transliterada para o português, se escreve da mesma maneira que a palavra que significa 'costume' (éthos). Em grego, existem duas vogais para pronunciar e grafar a vogal e: uma breve (epsílon) e uma longa (eta). Éthos, escrita com a vogal longa, significa 'costume'; poré,, se escrita com a vogal breve, significa 'caráter', 'índole natural', 'conjunto das disposições físicas e psíquicas de uma pessoa'.
Aristóteles e a práxis
Se devemos a Sócrates o início da filosofia moral, devemos a Aristóteles a distinção entre saber teorético ou contemplativo e saber prático. O saber teorético é o conhecimento de seres e fatos que existem e agem independentemente de nós e sem nossa interferência, isto é, de seres e fatos  naturais e divinos. O saber prático é o conhecimento daquilo que existe como consequência de nossa ação e, portanto, depende de nós. A ética e a política são saberes práticos. O saber prático pode ser de dois tipos: práxis ou técnica.
Na práxis, o agente, a ação e a finalidade do agir são inseparáveis, pois o agente, o que ele faz e a finalidade de sua ação são o mesmo. Assim, por exemplo, dizer a verdade é uma virtude do agente, inseparável de sua fala verdadeira e de sua finalidade, que é proferir uma verdade; não podemos distinguir o falante, a fala e o conteúdo falado.
Para Aristóteles, na práxis ética somos aquilo que fazemos e o que fazemos é a finalidade boa ou virtuosa. Ao contrário, na técnica o agente, a ação e a finalidade da ação são diferentes e estão separados, sendo independentes uns dos outros.
Um carpinteiro, por exemplo, ao fazer uma mesa, realiza uma ação técnica, mas ele próprio não é essa ação nem é a mesa produzida por ela. A técnica tem como finalidade a fabricação de alguma coisa diferente do agente (a mesa não é o carpinteiro, enquanto uma fala verdadeira é o ser próprio do falante que a diz) e da ação fabricadora (a ação técnica de fabricar a mesa implica o trabalho sobre a madeira com instrumentos apropriados, mas isso nada tem a ver com a finalidade da mesa, uma vez que o fim é determinado pelo uso e pelo usuário). Assim, a ética e a técnica são distinguidas como práticas que diferem pela realação do agente com a ação e com a finalidade da ação.
Deliberação e decisão
Também devemos a Aristóteles a definição do campo das ações éticas. Estas não são definidas pela virtude, pelo bem e pela obrigação, mas também pertencem àquela esfera da realidade na qual cabem a deliberação e a decisão e a escolha.
Em outras palavras, quando o curso da realidade segue leis necessárias e universais, não há como nem por que deliberar e escolher, pois as coisas acontecerão necessariamente tais como as leis que as regem determinam que devam acontecer. Não deliberamos sobre as estações do ano, o movimento dos astros, a forma dos minerais ou dos vegetais. Não deliberamos nem decidimos sobre aquilo que é regido pela natureza, isto é, pela necessidade.
Mas deliberamos e decidimos sobre tudo aquilo que, para ser e acontecer, depende de nossa vontade e de nossa ação. Não deliberamos e não decidimos sobre o necessário, pois o necessário é o que é e será sempre tal como é, independentemente de nós. Deliberamos e decidimos sobre o possível, sobre aquilo que pode ser ou deixar de ser, porque para ser e acontecer depende de nós, de nossa vontade e de nossa ação.
Com isso, Aristóteles acrescenta à consciência moral, trazida por Sócrates, a vontade guiada pela razão como o outro elemento fundamental da vida ética.
Devemos a Aristóteles uma distinção central em todas as formulações ocidentais da ética: a diferença entre o que é por natureza (ou conforme a physis) e o que é por vontade (ou conforme à liberdade). O necessário é por natureza; o possível, por vontade.
A importância dada por Aristóteles à vontade racional, à deliberação e à escolha o levou a considerar uma virtude como condição de todas as outras e presente em todas elas: a prudência ou sabedoria prática. Prudente é aquele que, em todas as situações, julga e avalia qual atitude e qual ação melhor realizarão a finalidade ética, ou seja, garantirão que o agente seja, garantirão que o agente seja virtuoso e realize o que é bom para si e para os outros.
O cristianismo: interioridade e dever
Diferentemente de outras religiões da Antiguidade, o cristianismo nasce como religião de indivíduos que não se definem por seu pertencimento a uma nação ou a um Estado, mas por sua fé em um único Deus. Assim, o cristianismo introduz duas diferenças primordiais na antiga concepção ética:
1. a ideia de que a virtude se define por nossa relação com Deus e não com a cidade (a pólis) nem com os outros. Nossa relação com os outros depende da qualidade da nossa relação com Deus, único  mediador entre cada indivíduo e os demais. Por isso, as principais virtudes cristãs, condições de todas as outras, são a fé (a relação de nossa alma com Deus) e a caridade (o amor aos outros e a responsabilidade pela salvação dos outros, conforme exige a fé). As virtudes são privadas e não públicas, são relações do indivíduo com Deus e com os outros, e se baseiam na intimidade e na interioridade de cada um;
2. a afirmação de que somos dotados de livre-arbítrio e que, em decorrência do "pecado original", o impulso espontâneo de nossa liberdade dirige-se para o mal, para o pecado. Somos seres pecadores, divididos entre o bem e o mal e constituídos de natureza fraca. Por isso, o cristianismo pressupõe nossa incapacidade de realizarmos o bem e as virtudes apenas por nossa vontade.
Em suma, enquanto para os filósofos antigos a vontade consciente era uma faculdade racional capaz de dominar e controlar nossos apetites e desejos, de modo a nos tornar morais, o cristianismo considera que a própria vontade está pervertida pelo pecado, sendo preciso auxílio divino para nos tornarmos morais. Esse auxílio é trazido pela lei divina revelada ou pelos mandamentos diretamente ordenados por Deus aos homens, que devem ser obedecidos obrigatoriamente, sem exceção.
Duas visões modernas do dever
Um dos filósofos que procurou resolver essa dificuldade foi Jean-Jaques Rousseau, no século XVIII. Para ele, a consciência moral e o sentimento do dever são inatos, são a "voz da natureza" e o "dedo de Deus" em nosso coração. Apesar do pecado do primeiro homem, conservamos em nosso coração vestígios da bondade original e por isso nascemos puros e bons, dotados de generosidade e de benevolência.
Se o dever parece ser uma imposição e uma obrigação externa, imposta por Deus aos humanos, é porque nossa bondade natural foi pervertida pela sociedade quando esta criou a propriedade privada e os interesses privados. Ao dar nascimento à razão utilitária ou à razão dos interesses privados. Ao dar nascimento à razão utilitária ou à razão dos interesses, a sociedade tornou-nos egoístas, mentirosos e destrutivos.
Assim, longe de ser uma imposição externa, o dever simplesmente é o que nos força a recordar nossa boa natureza originária, que ficaria para sempre escondida sob os interesses da razão utilitária se o dever nos fizesse recuperá-la por meio da bondade originária de nosso coração.
Outra resposta ao mesmo problema, também no final do século XVIII, foi dada por Kant. Opondo-se à "moral do coração" de Rousseau, Kant volta a afirmar o papell da razão na ética. Não existe bondade natural. Por natureza, diz Kant, somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos, roubamos. É justamente por isso que precisamos do dever, trazido pela razão pura prática, inata em nós, para nos tornar seres morais.
As respostas de Rousseau e de Kant, embora diferentes, procuram resolver a mesma dificuldade: explicar por que o dever e a liberdade da consciência moral são inseparáveis e compatíveis. A solução de ambos consiste em considerar o dever como algo que nasce em nosso interior, proposto pelo coração (Rousseau) ou pela razão (Kant), desfazendo, assim, a impressão de que ele nos seria impostor por uma vontade estranha à nossa.
A Ética de Espinosa
Se, agora, tornarmos, como referência um filósofo do século XVII, Baruch Espinosa, cuja obra principal intitula-se Ética, veremos o quadro das virtudes e dos vícios alterar-se profundamente.
Para Espinosa, somos seres naturalmente afetivos, isto é, nosso corpo é ininterruptamente afetado por outros (que podem conserva-lo e regenerá-lo ou enfraquecê-los ou destruí-los). Essas afecções corporais se exprimem em nossa alma na forma de afetos ou sentimentos. O afeto ou sentimento é, portanto, constitutivo de nosso corpo e de nossa alma. 
Nossos afetos são naturalmente paixões, pois somos naturalmente passionais porque sofremos a ação de causas exteriores a nós. Em outras palavras, ser passional é ser passivo, deixando-se conduzir por forças exteriores ao nosso corpo e de nossa alma.
Ora, por natureza, vivemos rodeados por outros seres, mais numerosos e mais fortes do que nós, que agem sobre nós. Por isso, diz Espinosa, as paixões não são boas nem más, simplesmente são naturais. Não são vícios da natureza humana e sim a maneira como existimos recebendo e sofrendo a ação de causas externas. Uma paixão indica a força ou a fraqueza de nosso ser para existir e pensar.
Três são as paixões originais ou primitivas: alegria, tristeza e desejo. As demais derivam destas. Uma paixão alegre é aquela que aumenta nossa capacidade de ser e agir. Dela nascem as paixões de amor, devoção, esperança, segurança, contentamento, misericórdia, glória. Uma paixão triste é a que diminui nossa capacidade para ser e agir. Dela surgem as paixões de ódio, inveja, orgulho, arrependimento, modéstia, humildade, medo, desespero. Desejar é ser determinado a querer e fazer alguma coisa conforme sejamos movidos por paixões de alegria ou de tristeza, aumentando ou diminuindo nossa capacidade de ser e de agir. Do desejo provém paixões como a gratidão, a glória, a benevolência, a cólera, a crueldade, a vingança, a ambição, o temor, a ousadia, a luxúria, a avareza.
Da servidão passional à liberdade afetiva
Que é o vício? Não é ter paixões. É, explica Espinosa, a fraqueza para existir, agir e pensar. É deixar-se levar apenas por afetos passivos ou paixões, submetendo-se a eles, pois com isso deixamos governar por causas externas.
Como sucumbiram ao poderio de forças externas? Deixando-nos dominar pelas paixões tristes e pelas desejantes nascidas da tristeza. Por isso, em vez de vício, Espinosa fala em servidão humana.
De fato, somos servos quando nossas paixões determinam nossa vida e, portanto, quando não somos livres, mas vivemos sob o poder externo das coisas, que nos arrastam para onde querem. Ora, quanto mais fracos somos, e tanto mais fracos nos tornamos quanto  mais paixões tristes e desejos tristes nos dominem.
Que é a virtude? Não é cumprir deveres e obrigações, mas ter força interior para passar da passividade à atividade, ou seja, de afetos passivos (as paixões) a afetos ativos (as ações éticas). A virtude é ação. Ser virtuoso ou o ser livre é passar da paixão à ação, tornar-se causa ativa interna de nossa existência, de nossos atos e pensamentos.
Essa passagem é uma mudança na qualidade de nossos afetos e se dá no próprio interior das paixões não contra elas, e sim graças a elas. De fato, as paixões e os desejos tristes nos enfraquecem e nos tornam cada vez mais passivos, enquanto as paixões e os desejos alegres nos fortalecem. A vida ética se inicia quando procuramos aumentar paixões e desejos alegres e afastar paixões e desejos tristes, pois, à medida que as paixões de alegria e de desejo alegre nos fortalecem, vamos adquirindo poder sobre nós mesmos e diminuindo o poderio das forças externas.
Quando nossa razão se torna capaz de ser vivida por nós afetivamente, isto é, quando experimentamos que conhecer é mais forte do que ignorar e que o conhecimento é a força própria de nossa alma, nossa atividade racional se torna afeto ativo, a alegria ativa.
Ora, a atividade racional não depende de causas externas, mas exclusivamente da força interna de nossa razão. Assim, uma razão forte é alegre e uma razão alegre é forte: com ela se inicia a passagem afetiva e cognitiva que nos leva da paixão à ação, da servidão à liberdade, transformando as paixões alegres e as desejantes nascidas da alegria em atividades de que somos a causa. A virtude é a força para ser e agir com liberdade.
Bom e mau
O bom, explica Espinosa, é aquilo que é útil para o crescimento de nosso ser; o mau, o que nos impede de alcançar algo bom para nossa existência. Seja nas paixões, seja nas ações, todos nós sempre buscamos o bom-útil e nos esforçamos para afastar o que julgamos mau-nocivo para nossa existência.
Ora, explica Espinosa, vivemos na companhia dos outros seres humanos e somos todos movidos por paixões, as quais podem tornar-nos contrários uns aos outros e inimigos uns dos outros. Dessa maneira, cada um pode tornar-se um obstáculo para que outros consigam o bom-útil que desejam. Por esse motivo, explica Espinosa, as paixões e os desejos alegres podem criar laços de concordância entre os homens, enquanto as paixões e os desejos tristes sempre os tornam inimigos.
Todavia, uma paixão é sempre instável, pois nela nosso sentimento depende de causas externas e de circunstâncias que não dependem de nós. Por esse motivo, paixões e desejos alegres podem mudar e tornar-se tristes, enfraquecer-nos e nos tornar inimigos uns dos outros.
Para resolver essa dificuldade, Espinosa propõe duas soluções: de um lado, um sociedade política cujas instituições favoreçam  a diminuição das formas de violência e fortaleçam os laços de amizade, gratidão e benevolência entre as pessoas, estabilizando suas paixões e seus desejos alegres; essa sociedade é a sociedade democrática. De outro, a vida ética como ação virtuosa.
Que significa isto?
A virtude, diz Espinosa, não é senão a realização de nossa capacidade cognitiva ou racional, e por isso nela nunca nos enganamos quanto ao que é bom-útil para nosso ser. Assim sendo, os que agem por virtude não são movidos pelo ódio, pelo medo, pela inveja, pelo orgulho e por outra paixões criadoras de inimizade e discórdia. Consequentemente, a virtude favorece e conserva a concórdia afetiva e cognitiva entre os homens.
Assim como a política democrática estabiliza paixões e desejos alegres, promovendo a concórdia social, também avida ética promove a concórdia e a amizade entre os indivíduos. Na política democrática, a concordância baseia-se no fato de que o que é bom-útil para a sociedade também o é para os seus membros; na ética, a base é dada pelo fato de que o que é bom-útil para um indivíduo, por ser algo racional e desejo alegre ou forte, não é obstáculo para o bem e a utilidade dos outros, mas favorece a virtude dos demais.
Uma concepção contemporânea da virtude
Observamos que a ética espinosana evita oferecer um quadro de virtudes e vícios, distanciando-se de Aristóteles e da moral cristã, para buscar na ideia moderna de indivíduo livre o núcleo da ação moral. Na ética, Espinosa jamais fala em pecado e em dever; fala em fraqueza e em força para ser, pensar e agir.
As virtudes aristotélicas inserem-se numa sociedade que valorizava as relações sociopolíticas entre os seres humanos. As virtudes cristãs, por sua vez, exprimem ideias, costumes e valores de uma sociedade voltada para a relação dos seres humanos com Deus e com a lei divina. A virtude espinosana torna a relação do indivíduo com a natureza e a sociedade, centrando-se nas ideias de integridade individual e de força interna para relacionar-se livremente com ambas.
Um pensador contemporâneo, Alasdair MacIntyre, numa obra intitulada Depois da Virtude, procura redefinir a ideia de virtude na sociedade contemporânea. A pluralidade e diversificação de instituições sociais na atualidade impõem para um mesmo indivíduo uma grande variedade de condutas e comportamentos diferentes, há normas e valores na família, na escola, nos diferentes tipos de profissões e de trabalhos, nas diferentes formas políticas, etc.
Indaga MacIntyre é possível falar em virtude no singular, a virtude, ou será preciso considerar que em cada esfera da existência há um tipo determinado de virtude e empregar o plural, as virtudes? Seja no singular, seja no plural, falar em virtude implica uma ideia geral de virtude por isso, cabe indagar: como encontrar uma ideia de virtude que possa dar conta da multiplicidade de condutas e de modo de vida?
MacIntyre, inspirando-se em Aristóteles, concebe a virtude como práxis, portanto, como aquela ação ou conduta na qual o agente, o ato e a finalidade são inseparáveis e mesmo idênticos. Por isso, a concebe como uma qualidade humana adquirida que, em qualquer esfera de vida e atividade, nos torna capazes de alcançar um bem interno à própria prática ou à própria conduta.
MacInyre se preocupa com o fato de que sociedades como a nossa são internamente muito diferenciadas em suas instituições sociais, cada uma delas com normas e regras de condutas próprias. Dessa maneira, o que pode ser ético na família não o será na profissão e o que é ético em ambas poderá não sê-lo na política, etc.
Nesse contexto, a unidade ética é alcançada quando somos capazes de avaliar os múltiplos bens ou valores de cada esfera de nossa existência à luz da unidade de nossa vida, isto é, de nosso desejo de uma vida coerente, inteira e íntegra. É esse desejo de coerência de vida e de inteireza de caráter que deve orientar cada uma de nossas condutas e cada um de nossos comportamentos.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Filosofia na História

Os principais períodos da Filosofia:
Filosofia antiga (do século VI a.C. ao século VI d.C.)
Compreende os quatro grandes períodos da filosofia greco-romana, indo do período pré-socrático ao helenístico.
Filosofia patrística (do século I ao século VII)
Inicia-se com as Epístolas de Paulo e o Evangelho de João e termina no século VIII, quando teve início a filosofia medieval.
A filosofia desse período é conhecida com o nome de patrística, pois foi obra não só de dois apóstolos (Paulo e João), mas também dos chamados padres da Igreja católica, isto é, dos primeiros dirigentes espirituais e políticos do cristianismo, após a morte dos apóstolos.
A patrística resultou do esforço feito pelos dois apóstolos intelectuais (Paulo e João) e pelos primeiros padres para conciliar a nova religião, o cristianismo, com o pensamento filosófico dos gregos e romanos, pois somente com tal conciliação seria possível convencer os pagãos da nova verdade e convertê-los a ela. A filosofia patrística liga-se, portanto, à evangelização e à defesa da religião cristã contra os ataques teóricos e morais que recebia dos antigos. Seus nomes mais importantes foram Justino, Tertuliano, Orígenes, Clemente, Eusébio, Santo Ambrósio, São Gregório Nazianzo, São João Crisóstomo, Santo Agostinho e Boécio.
A patrística introduziu ideias desconhecidas para os filósofos greco-romanos; a ideia de criação do mundo a partir do nada, de pecado original do homem, de Deus como trindade una, de encarnação e morte de Deus, de juízo final ou de fim dos tempos e ressurreição dos mortos, etc. Precisou também explicar como o mal pode existir no mundo, uma vez que tudo foi criado por Deus, que é pura perfeição e bondade.
Introduziu, sobretudo com Santo Agostinho e Boécio, a ideia de "homem interior", isto é, da consciência moral e do livre-arbítrio da vontade, pelo qual o homem, por ser dotado de liberdade para escolher entre o bem e o mal, é o responsável pela existência do mal no mundo.
Para impor as ideias cristãs, os padres da Igreja católica as transformaram em verdades reveladas por Deus (por meio da Bíblia e dos santos) que, por serem decretos divinos, seriam dogmas, isto é, verdades irrefutáveis e inquestionáveis. Com isso, criou-se uma distinção entre verdades reveladas ou da fé e verdades da razão ou humanas, ou seja, entre verdades sobrenaturais e verdades naturais, as primeiras introduzindo a noção de conhecimento recebido por uma graça divina, superior ao simples conhecimento racional. Dessa forma, o grande tema da filosofia patrística é o da possibilidade ou impossibilidade de conciliar a razão com a fé.
A esse respeito, havia três posições principais:
1. os que julgavam fé e razão irreconciliáveis e a fé superior à razão (diziam eles: "Creio porque é absurdo");
2. os que julgavam fé e razão conciliáveis, mas subordinavam a razão à fé (diziam: "Creio para compreender");
3. os que julgavam razão e fé irreconciliáveis, mas afirmavam que cada uma delas tem seu campo próprio de conhecimento e não devem se misturar (a razão se refere a tudo o que concerne à vida temporal dos homens no mundo; a fé, a tudo o que se refere à salvação da alma e à vida eterna futura).
Filosofia Medieval (do século VIII ao século XIV)
Abrange pensadores europeus, muçulmanos e judeus. É o período em que a Igreja romana dominava a Europa, ungia e coroava reis, organizava Cruzadas à chamada Terra Santa e criava, à volta das catedrais, as primeiras universidades ou escolas. A partir do século XII, por ter sido ensinada nas escolas, a filosofia medieval também é conhecida com o nome de escolástica.
A filosofia medieval teve como influências principais Platão e Aristóteles, embora o Platão conhecido pelos medievais fosse o neoplatônico (isto é, interpretado pelo filósofo Plotino, do século III d.C.), e o Aristóteles por eles conhecido fosse aquele conservado e traduzido pelos pensadores muçulmanos, particularmente Avicena e Averróis.
Conservando e discutindo os mesmos problemas que a patrística, a filosofia medieval acrescentou outros. Durante esse período surge principalmente a filosofia cristã, que é, na verdade, uma teologia fundada na nova fé do mirante no Ocidente. Alguns de seus grandes temas são: a diferença e separação entre infinito (Deus) e finito (homem, mundo); a diferença entre a razão e fé (a primeira deve subordinar-se à segunda); a diferença e separação entre corpo (matéria) e alma (espírito); o Universo como uma hierarquia de seres, pelo qual os superiores (Deus, serafins, querubins, arcanjos, anjos, alma) dominam e governam os inferiores (corpo, animais, vegetais, minerais); a subordinação do poder temporal dos reis e nobres ao poder espiritual de papas e bispos.
Outra característica marcante da escolástica foi o método por ela inventado para expor as ideias filosóficas, conhecido como disputa: apresentava-se uma tese e esta devia ser ou refutada ou defendida com argumentos tirados da Bíblia, de Aristóteles, de Platão ou de padres da Igreja, particularmente Pedro Lombardo.
Assim, uma ideia era considerada verdadeira ou falsa dependendo da força e da qualidade dos argumentos encontrados nos vários autores. Por causa desse método de disputa, costuma-se dizer que, na Idade Média, o pensamento estava subordinado ao princípio da autoridade, isto é, uma ideia é considerada verdadeira se tiver respaldo nos argumentos de uma autoridade reconhecida, Bíblia, Platão, Aristóteles, um papa, um santo.
Filosofia da Renascença (século XIV e XV) 
É marcada pela descoberta, na Europa ocidental, das obras de Platão e de outras obras de Aristóteles, desconhecidas na Idade Média. Essas obras, lidas em grego, recebem novas traduções, mais acuradas e fiéis. Nessa época, muitos também se dedicam a recuperar obras de autores gregos e romanos e imitá-los.
São três as grandes linhas de pensamento que predominavam na Renascença:
1. Aquela proveniente da leitura de três diálogos de Platão (Banquete, Fédon e Fedro), das obras dos filósofos neoplatônicos e da descoberta do conjunto dos livros de hermetismo ou de magia natural, que se supunha terem vindo do Egito, escritos séculos antes de Moisés e de Platão, ditados por deuses a seus filhos humanos.
Essa linha de pensamento, surgida na cidade de Florença (na atual Itália), concebia a natureza como um grande ser vivo, dotado de uma alma universal ( a Alma do Mundo) e feito de laços e vínculos secretos de simpatia e antipatia entre todas as coisas. O homem, como parte da natureza, poderia agir sobre o mundo por meio de conhecimentos e práticas que operam com essas ligações secretas, isto é, por meio da magia natural, da alquimia e da astrologia.
2. Aquela originária dos pensadores florentinos que valorizavam a vida ativa (a política) e defendiam a liberdade das cidades italianas contra o poderio dos papas e dos imperadores. Na defesa da liberdade política, esses pensadores recuperaram a ideia de república presente nas obras dos grandes autores políticos da Roma antiga, como Cícero, Tito Lívio e Tácito, bem como nos escritos de historiadores e juristas clássicos. Sua proposta era a da "imitação dos antigos", ou o renascimento da república livre.
3. Aquela que propunha o ideal do homem como artífice de seu próprio destino, tanto por meio dos conhecimentos (astrologia, magia, alquimia) como por meio da política (o ideal republicano), das técnicas (medicina, arquitetura, engenharia, navegação) e das artes (pintura, escultura, poesia, teatro).
Essas três linhas de pensamento explicam por que se costuma falar no humanismo como traço predominante da Renascença, uma vez que nelas o homem é colocado como centro do Universo, defendido em sua liberdade e em seu poder criador e transformador.
A intensa atividade teórica e prática dessa época foi alimentada com as grandes viagens marítimas, que levavam os europeus a conhecer novos mares, novos céus, novas terras e novas gentes, permitindo-lhes ter uma visão crítica de sua própria sociedade. Essa efervescência cultural e política levou a críticas profundas à Igreja romana, que culminaram na Reforma Protestante.
Filosofia Moderna (do século XVII a meados do século XVIII) 
Nesse período, conhecido como o Grande Racionalismo Clássico, foi preciso enfrentar um ambiente de pessimismo teórico, reinante desde o fim desde o século XVI. Dominava o citicismo, a atitude filosófica que duvida da capacidade da razão humana para conhecer a realidade exterior e o homem.
As guerras de religião, os encontros dos europeus com povos que desconheciam, as disputas filosóficas e teológicas criaram um ambiente em que o sábio já não podia admitir que a razão humana é capaz de conhecimento verdadeiro e que a verdade é universal e necessária. Ao contrário, diante da multiplicidade de opiniões em luta, o sábio tornou-se cético.
Para restaurar o ideal filosófico da possibilidade do conhecimento racional verdadeiro e universal, a filosofia moderna propõe três mudanças teóricas principais:
1. O surgimento do sujeito do conhecimento: a filosofia, em lugar de começar por conhecer a natureza (como na filosofia antiga) ou Deus (como na patrística e na escolástica), começa indagando qual é a capacidade da razão humana para conhecer e demonstrar a verdade dos conhecimentos. Em outras palavras, em vez de começar pelas coisas a serem conhecidas, sobre as quais só cabem dúvidas e desconfianças, a filosofia começa pela reflexão. Assim, aquele que conhece (o sujeito do conhecimento) volta-se para si mesmo para saber se é capaz de conhecimento verdadeiro e, se for, sob quais condições ele é capa disso. Somente depois de conhecer-se a si mesmo como capaz de conhecimento verdadeiro é que o sujeito se volta para as coisas a conhecer ou para os objetos do conhecimento.
O ponto de partida é, portanto, o sujeito do conhecimento como consciência de si reflexiva, isto é, como consciência que conhece sua capacidade de conhecer. O sujeito do conhecimento é o intelecto ou a inteligência que, com a vontade, existe no interior de uma substância, a corpórea, que constitui a natureza do nosso corpo e dos corpos exteriores.
Por isso, para vencer o ceticismo, a filosofia precisa responder às perguntas: "Como o intelecto pode conhecer o que é diferente dele?"; "Como o espírito pode conhecer a matéria?"; "Como o sujeito espiritual pode conhecer os objetos corporais, o seu próprio corpo e os demais corpos da natureza?".
2. A resposta a essas perguntas constitui a segunda grande mudança teórica, que diz respeito ao objeto do conhecimento. Para os modernos, as coisas exteriores (a natureza, as instituições sociais e políticas) são conhecidas quando o sujeito do conhecimento as representa intelectualmente, ou seja, quando as apreende como ideias que dependem apenas das operações cognitivas realizadas pelo próprio sujeito.
Isso significa, por um lado, que tudo o que pode ser conhecido deve poder ser representado por um conceito ou por uma ideia clara e distinta, demonstrável e necessária, formulada pelo intelecto, e, por outro lado, que a natureza, a sociedade e a política podem ser inteiramente conhecidas pelo sujeito do conhecimento, porque são racionais em si mesmas e propensas a serem representadas pelas ideias do sujeito do conhecimento.
3. Essa concepção da realidade como racional e plenamente captável pelas ideias e conceitos preparou a terceira grande mudança teórica moderna. A natureza, a partir de Galileu, é concebida como um sistema ordenado de causas e efeitos cuja estrutura profunda e invisível é matemática. O "livro do mundo", diz Galileu, "está escrito em caracteres matemáticos, e para lê-lo é preciso conhecer matemática".
Essa ideia deu origem à ciência clássica, na qual prevalece o ponto de vista da mecânica, isto é, o de que nas relações de causa e efeito entre as coisas a causa é sempre o movimento, e este segue leis universais necessárias que podem ser explicadas e representadas matematicamente. Todos os fatos da realidade podem ser conhecidos pelas relações necessárias de causa e efeito que os produzem, os conservam ou os destroem.
A realidade é um sistema de causalidades racionais rigorosas que podem ser conhecidas e transformadas pelo homem. Nascem, assim, a ideia de experimentação científica (são criados laboratórios) e o ideal tecnológico, ou seja, a expectativa de que o homem poderá dominar tecnicamente a natureza e a sociedade, graças à invenção de máquinas.
Existe também a convicção de que a razão humana é capaz de conhecer a origem, as causas e os efeitos das paixões e das emoções e, pela vontade orientada pela razão, é capaz de governá-las e dominá-las de sorte que a vida ética pode ser plenamente racional.
A mesma convicção orienta o racionalismo político, isto é, a ideia de que a razão é capaz de definir para cada sociedade qual o melhor regime político e como mantê-lo racionalmente.
Os principais pensadores desse período foram: Francis Bacon, Descartes, Galileu, Pascal, Hobbes, Leibniz, Espinosa, Malebranche, Locke, Berkeley, Newton, Gassendi.
Filosofia da ilustração ou Iluminismo (meados do século XVIII ao início do século XIX)
Esse período também crê nos poderes da razão, chamada de As Luzes (por isso o nome iluminismo). O Iluminismo afirma que:
. pela razão, o homem pode conquistar a liberdade e a felicidade social e política (as ideias do iluminismo foram decisivas para a Revolução Francesa de 1789);
.  a razão é capaz de aperfeiçoamento e progresso, e o homem é um ser perfectível. A perfectibilidade consiste em libertar-se dos preconceitos religiosos, sociais e morais, libertar-se da superstição e do medo, graças ao avanço das ciências, das artes e da moral;
. o aperfeiçoamento da razão se realiza pelo progresso das civilizações, que vão das mais atrasadas (também chamadas de "primitivas" ou "selvagens") às mais adiantadas e perfeitas (na visão da maioria de seus filósofos, as da Europa ocidental);
. há diferença entre natureza e civilização: a natureza é o reino das leis naturais universais e
imutáveis, enquanto a civilização é o reino da liberdade e da finalidade proposta pela vontade livre dos próprios homens em seu aperfeiçoamento moral, técnico e político
A natureza é o reino da necessidade, isto é, das coisas e acontecimentos que não podem ser diferentes do que são; a civilização é o reino da liberdade, isto é, onde os fatos e acontecimentos podem ser diferentes do que são porque a vontade humana pode escolher entre alternativas.
Nesse período há grande interesse pelas ciências que operam com a ideia de transformação progressiva. Por isso, a biologia terá um lugar central no pensamento ilustrado, pertencendo ao campo da filosofia da vida. Há igualmente grande interesse e preocupação com as artes, na medida em que elas seriam a expressão por excelência do grau de progresso de uma civilização.
Data também desse período o interesse pelas bases econômicas da vida social e política. Surge uma reflexão sobre a origem e a forma das riquezas das nações, com uma controvérsia sobre qual é a fonte de maior importância: a agricultura (corrente fisiocrata) ou o comércio (corrente mercantilista).
Os principais pensadores do período foram: Hume, Voltaire, D'Alembert, Diderot, Rousseau, Kant, Fichte e Shelling.
Filosofia contemporânea
Abrange o pensamento que vai de meados do século XIX aos nossos dias. Este período, por ser o mais próximo de nós, parece o mais complexo de definir: as diferenças entre as várias posições filosóficas nos parecem muito grandes, pois as estamos vendo surgir diante de nós.
Os principais filósofos da contemporaneidade são: Michel Foucault, Martin Heidegger, Ludwig Wittgenstein, Jürgen Habermas. 

quinta-feira, 28 de maio de 2015

A metafísica aristotélica.

Na Metafísica, Aristóteles afirma que a Filosofia Primeira estuda os primeiros princípios e as causas primeiras de todas as coisas e investiga "o Ser enquanto Ser". A Filosofia Primeira estuda as essências físicas, astronômicas, humanas, etc., pois cabe às diferentes ciências estudá-las como diferentes entre si. à metafísica cabem três estudos:
1. o estudo do ser divino, a realidade primeira e suprema da qual todo o restante procura aproximar-se, imitando sua perfeição imutável. As coisas se transformam incessantemente, diz Aristóteles, porque desejam encontrar sua essência total e perfeita, imutável como a essência divina. Por isso, o ser divino é o Primeiro Motor Imóvel do mundo, isto é, aquilo que, sem agir diretamente sobre as coisas, ficando à distância delas, as atrai, é desejado por elas. Tal desejo as faz mudar para, um dia, não mais mudar (esse desejo, diz Aristóteles, explica por que há o devir e por que o devir é eterno, pois as coisas naturais nunca poderão alcançar a perfeição imutável).
A mudança ou o devir são a maneira pela qual a natureza, ao seu modo, se aperfeiçoa e busca imitar a perfeição do imutável divino. O ser divino chama-se Primeiro Motor Imóvel porque é o princípio que move toda a realidade ao mesmo tempo que não se move e não é movido por nenhum outro ente. Como já vimos, movimento significa 'mudança', 'alterações qualitativas e quantitativas sofridas'; nascer é perecer, e o ser divino, perfeito, não foi gerado, por isso, nunca muda;
2. o estudo dos primeiros princípios e causas primeiras de todos os seres ou essências existentes;
3. o estudo das propriedades ou atributos gerais de todos os seres, graças aos quais podemos determinar a essência particular de um ser particular existente. A essência ou ousia é a realidade primeira e última de um ser, aquilo sem o qual um ser não poderá existir ou deixará de ser o que é. À essência, entendida dessa perspectiva universal. Aristóteles dá o nome de substância, e a metafísica estuda a substância em geral.
Os principais conceitos
De maneira muito breve e simplificada, os principais conceitos da metafísica aristotélica (eque se tornarão as bases de toda a metafísica ocidental) podem ser assim resumidos:
. primeiros princípios: são os três princípios que estudamos na lógica, isto é, identidade, não contradição e terceiro excluído. Os princípios lógicos são ontológicos porque definem as condições sem as quais um ser não pode existir nem ser pensado; os primeiros princípios garantem, simultaneamente, a realidade e a racionalidade das coisas;
. causas primeiras: são aquelas que explicam o que a essência é e também a origem e o motivo da sua existência. Causa (para os gregos) significa não só o porquê de alguma coisa, mas também o o quê e o como uma coisa é o que ela é. As causas primeiras nos dizem o que é, como é, por que é e para que é uma coisas. São quatro as causas primeiras:
1. causa material, isto é, aquilo de que um ser é feito, sua matéria (por exemplo, água, fogo, ar, terra);
2. causa formal, isto é, aquilo que explica a forma que um ser possui (por exemplo, o rio ou o mar são formas da água; a mesa é a forma assumida pela matéria madeira com a ação do carpinteiro). A forma é propriamente a essência de um ser, aquilo que ele é em si mesmo ou aquilo que o define em sua identidade e diferença com relação a todos os outros;
3. causa eficiente ou motriz, isto é, aquilo que explica como uma matéria recebeu uma forma para constituir uma essência (por exemplo, o ato sexual é a causa eficiente que faz a matéria óvulo, ao receber o esperma, adquirir a forma de um novo animal ou de uma criança; o carpinteiro é a causa eficiente que faz a madeira receber a forma de mesa; etc.);
4. a causa final, isto é, a causa que dá motivo, a razão ou a finalidade para alguma coisa existir e ser tal como ela é (por exemplo, o bem comum é a causa final da política; a flor é a causa final da transformação da semente em árvore; o Primeiro Motor Imóvel é a causa final do movimento dos seres naturais, etc.);
. matéria: é o elemento de que as coisas da natureza, os animais, os homens, os artefatos são feitos; sua principal característica é possuir virtualidades ou conter em si mesma possibilidades de transformação, isto é, de mudança;
. forma: é o que individualiza e determina uma matéria, fazendo existir as coisas ou os seres particulares; sua principal característica é ser aquilo que uma essência é;
. potência: é a virtualidade que está contida numa matéria e pode vir a existir, se for atualizada por alguma causa; por exemplo, a criança é um adulto em potência ou em potencial; a semente é a árvore em potência ou em potencial;
ato: é a atualização de uma matéria por uma forma e numa forma que atualizou uma potência contida na matéria. Por exemplo, a árvore é o ato da semente, o adulto é o ato da criança, a mesa é o ato da madeira, etc.
Potência e matéria são idênticas, assim como forma e ato são idênticos. A matéria ou potência é uma realidade passiva que precisa do ato e da forma, isto é, da atividade que cria os seres determinados. Graças aos conceitos de potência e ato, a metafísica aristotélica pode explicar a causa e a racionalidade de todos os movimentos naturais ou dos seres físicos, isto é, de todos os seres dotados de matéria e forma. O devir não é aparência nem ilusão, ele é o movimento pelo qual a potência se atualiza, a matéria recebe a forma e muda de forma.
. essência: é a unidade interna e indissolúvel entre uma matéria e uma forma. Essa unidade lhe dá um conjunto de propriedades ou atributos que a fazem ser necessariamente aquilo que ela é. Assim, por exemplo, um ser humano é por essência um animal mortal racional dotado de vontade, gerado por outros semelhantes a ele e capaz de gerar outros seres semelhantes a ele, etc.;
. acidente: é uma propriedade ou atributo que uma essência pode ter ou deixar de ter sem perder seu ser próprio. Por exemplo, um ser humano é racional ou mortal por essência, mas é baixo ou alto, gordo ou magro, negro ou branco, por acidente.
. substância: é aquilo em que se encontram a matéria-potência, a forma-ato, onde estão os atributos essenciais e acidentais, sobre o qual agem as quatro causas; em suma, é o Ser propriamente dito.
. predicados: são as categorias que vimos no estudo da lógica e que também são ontológicas, porque se referem à estrutura e ao modo de ser da substância ou da essência (quantidade, qualidade, relação, lugar, tempo, posse, ação, paixão). Vimos, ao estudar a lógica, que a substância é a primeira categoria. Aristóteles explica que, enquanto todas as categorias são predicados atribuídos a um sujeito, a substância é a primeira categoria. Aristóteles explica que, enquanto todas as categorias são predicados atribuídos a um sujeito, a substância não é atribuída a ninguém porque ele é, justamente, o sujeito que recebe os predicados. Os predicados atribuídos a uma substância são constitutivos de sua essência, pois toda a realidade pode ser conhecida porque: possui qualidades (mortal, imortal, finito, infinito, bom, mau, etc.); quantidades (um, muitos, alguns, pouco, muito, grande, pequeno); relaciona-se com outros (igual, diferente, semelhante, maior, menor, superior, inferior); está em algum lugar (aqui, ali, perto, longe, etc.); está no tempo ( antes, depois, agora, etc.); realiza ações ou faz alguma coisa (anda, pensa, dorme, corta, cai, etc.) e sofre ações de outros seres (é cortado, é preso, é puxado, etc.).
As categorias ou predicados podem ser essenciais ou acidentais, isto é, podem ser necessários e indispensáveis à natureza própria de um ser ou podem ser algo que um ser possui por acaso ou que lhe acontece por acaso, sem afetar sua natureza. 

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Para que Filosofia?

Ora, muitos fazem outra pergunta: "Afinal, para que filosofia?". É uma pergunta interessante. Não vemos nem ouvimos ninguém perguntar por exemplo, "Para que matemática ou física?", "Para que geografia ou geologia/", "Para que biologia ou psicologia?", "Para que astronomia ou química?", "Para que pintura, literatura, música ou dança?". Mas todo mundo acha muito natural perguntar: "Para que filosofia?".
Em geral, essa pergunta costuma receber uma resposta irônica, conhecida dos estudantes de filosofia: "A filosofia é uma ciência com a qual e sem a qual o mundo permanece tal e qual". Ou seja, a filosofia não serve para nada. Por isso, costuma-se chamar de "filósofo" alguém distraído, com a cabeça no mundo da lua, pensando e dizendo coisas que ninguém entende e que são completamente inúteis.
Essa pergunta, "Para que filosofia?", tem sua razão de ser. Em nossa cultura e em nossa sociedade, costumamos considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática muito visível e de utilidade imediata. Quando se pergunta "Para quê?", o que se pergunta é: "Qual a utilidade?", "Que uso proveitoso ou vantajoso posso fazer disso?".
Eis por que ninguém pergunta "Para que as ciências?", pois todo mundo imagina ver a utilidade das ciências nos produtos da técnica. Todo mundo também imagina ver a utilidade das artes, tanto por causa da compra e venda das obras de arte quanto porque nossa sociedade vê os artistas como gênios que merecem ser valorizados (ao mesmo tempo que, paradoxalmente, é capaz de rejeitá-los se suas obras forem verdadeiramente revolucionárias e inovadoras, pois, nesses casos, eles não são "úteis" para a manutenção do poder estabelecido).
Ninguém, todavia, consegue perceber para que serviria a filosofia. Parece que o senso comum não enxerga algo que os cientistas sabem muito bem. As ciências pretendem ser conhecimentos verdadeiros, obtidos graças a procedimentos rigorosos de pensamento; pretendem agir sobre a realidade por meio de instrumentos e objetos técnicos; pretendem fazer progressos nos conhecimentos, corrigindo-os e aumentando-os.
Ora, todas essas pretensões das ciências pressupõem que elas admitem a existência da verdade, a necessidade de procedimentos corretos para bem usar o pensamento, o estabelecimento da tecnologia como aplicação prática de teorias. Sobretudo, pressupõem que elas confiam na racionalidade dos conhecimentos.
Verdade, pensamento racional, procedimentos especiais para conhecer fatos, aplicação prática de conhecimentos teóricos, correção e acúmulo de saberes: esses propósitos das ciências não são científicos, são filosóficos e dependem de questões filosóficos. O cientista parte deles como questões já respondidas, mas é a filosofia que as formula e busca respostas para elas.
Assim, o trabalho das ciências pressupõe o trabalho da filosofia, mesmo que o cientista não seja filósofo.
No entanto, como apenas os cientistas e os filósofos sabem disso, a maioria das pessoas continua afirmando que a filosofia não serve para nada.
A filosofia como fundamentação teórica e crítica
Nessa condição, a filosofia se volta para o estudo dos vários modos de conhecimento (percepção, imaginação, memória, linguagem, inteligência, experiência, reflexão) e dos vários tipos de atividades interiores e comportamentos externos dos seres humanos como expressões da vontade, do desejo e das paixões. Ela procura descrever as formas e os conteúdos desses modos de conhecimento e desses tipos de atividade e comportamento como relação do ser humano com o mundo, consigo mesmo e com os outros.
Para realizar seu trabalho, a filosofia investiga e interpreta o significado de ideias gerais, como realidade, mundo, natureza, cultura, história, verdade, falsidade, humanidade, temporalidade, espacialidade, qualidade, quantidade, subjetividade, objetividade, diferença, repetição, semelhança, conflito, contradição, mudança, necessidade, possibilidade, probabilidade, etc.
A atividade filosófica é, portanto, uma análise, uma reflexão e uma crítica. Essas três atividades são orientadas elaboração filosófica de ideias gerais sobre a realidade e os seres humanos. Portanto, para que essas três atividades se realizem, é preciso que a filosofia se defina como busca do fundamento (princípios, causas e condições) e do sentido (significação e finalidade) da realidade em suas múltiplas formas. Para tanto, ela deve indagar o que essas formas de realidade são, como são e por que são, e procurar as causas que as fazem existir, permanecer, mudar e desaparecer.
A filosofia não é ciência: é uma reflexão sobre os fundamentos da ciência, isto é, sobre procedimentos e conceitos científicos. Não é religião: é uma reflexão sobre os fundamentos da religião, isto é, sobre as causas, origens e formas das crenças religiosas. Não é arte: é uma reflexão sobre os fundamentos da arte, isto é, sobre os conteúdos, as formas, as significações das obras de arte e do trabalho artístico. Não é sociologia nem psicologia, mas a interpretação e avaliação crítica dos conceitos e métodos da sociologia e da psicologia. Não é política, mas interpretação, compreensão e reflexão sobre a origem, a natureza e as formas do poder e suas mudanças. Não é história, mas reflexão sobre o sentido dos acontecimentos inseridos no tempo e compreensão do que seja o próprio tempo.
Útil? Inútil?
O primeiro ensinamento filosófico é perguntar: "O que é o útil?", "Para que e para quem algo é útil?", "O que é o inútil?, "Por que e para quem algo é inútil?".
O senso comum de nossa sociedade considera útil o que dá prestígio, poder, fama e riqueza. Julga o útil pelos resultados visíveis das coisas e das ações, identificando sua possível utilidade, como na famosa expressão "levar vantagem em tudo". Não poderíamos, porém, definir o útil de outra maneira? Vamos ver o que dizem alguns filósofos de diferentes épocas e lugares.
Platão definia a filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em benefício dos seres humanos para que vivam numa sociedade justa e feliz.
Descartes dizia que a filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes com as quais ficam menos submetidos às forças naturais, às intempéries e aos cataclismos.
Kant afirmou que a filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer, o que pode fazer e o que pode esperar, tendo como finalidade a felicidade humana.
Marx declarou que a filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, de modo que se alcançasse justiça, abundância e felicidade para todos.
Merleau-Ponty escreveu que a filosofia é um despertar para ver e mudar nosso  mundo.
Espinosa afirmou que a filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria, então, a utilidade da filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se submeter às ideias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do  mundo, da cultura, da história for útil, se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na  política for útil; se dar a cada um e à sociedade os meios para sermos conscientes de nós mesmos e de nossas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes.
  

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Filosofia e religião.

A religiosidade: Desde muito cedo os seres humanos percebem regularidades na natureza e sabem que não são a causa delas, percebem também que há na natureza coisas boas e ameaçadoras e reconhecem que não são os criadores delas. A percepção da realidade exterior como algo independente da ação humana nos conduz à crença em poderes superiores ao humano e à busca de meios para nos comunicarmos com eles. Nasce, assim, a crença na(s) divindade(s).
A consciência também é responsável pela descoberta da morte. Um filósofo disse que somente os seres sabem que são mortais e outro escreveu: " O animal acaba, mas o homem morre". O que isso quer dizer?
Quando indicamos os principais traços da cultura, observamos que nela e por ela os seres humanos têm a experiência do tempo. Vimos também que outro aspecto fundamental da cultura é a atividade do trabalho. Ora, ao trabalhar, as pessoas se relacionam com um tempo que não é o presente, e sim o futuro, pois o trabalho é feito em vista de algo que ainda não existe.
Vimos também, ao estudarmos a memória, que ela é responsável pelo sentimento da identidade pessoal e da continuidade de uma vida que transcorre no tempo. A percepção do tempo, o trabalho e a memória fazem com que as pessoas sejam capazes de estabelecer relações com o ausente: o passado lembrado, o futuro esperado.
Se reunirmos numa única experiência o sentimento do tempo e o da identidade pessoal, notaremos que os humanos são conscientes de que alguns seres e coisas desaparecem no tempo e outros surgem no tempo. Esses seres e coisas permanecem durante certo período porque os humanos são capazes de ligar passado, presente e futuro, isto é, são capazes de perceber que existem e possuem identidade. Mas também são conscientes de que podem desaparecer um dia. Ou seja, sabem que morrem.
Ora, por sermos conscientes tanto do tempo como uma presença (o presente) situada entre duas ausências (o passado e o futuro) quanto de nossa identidade e da identidade de nossos semelhantes, concebemos a permanência dessa identidade num tempo futuro, isto é, concebemos uma existência futura, num outro lugar ou num outro mundo, para onde vamos após a morte.
A crença numa vida futura explica por que uma das primeiras manifestações religiosas em todas as culturas são os rituais fúnebres, que asseguram  a entrada dos mortos na vida futura, e a busca de meios para comunicar-se com eles.
A crença em divindades e numa outra vida após a morte defino o núcleo da religiosidade e se exprime na experiência do sagrado.
A vida após a morte: Vimos que o sentimento religioso e a experiência da religião são inseparáveis da percepção de nossa mortalidade e da crença em nossa imortalidade. Toda religião, portanto, explica não só a origem da ordem do mundo natural, mas também a dos seres humanos e lhes ensina por que são mortais e o que podem ou devem esperar após a morte.
Na quase totalidade das religiões o mistério da morte é sempre explicado como consequência de alguma falta cometida contra algum deus ou de alguma ofensa que os homens fizeram aos deuses. No princípio os homens eram imortais e viviam na companhia dos deuses ou de Deus; a seguir, alguém ou alguns cometem uma transgressão imperdoável (um pecado) que leva à grande punição: a mortalidade para todos. No entanto, a imortalidade não está totalmente perdida, pois os deuses (ou Deus) concedem aos mortais uma vida após a morte, desde que, na vida presente, respeitem a vontade e a lei divinas.
Como é a imortalidade? Algumas religiões afirmam a imortalidade do corpo humano assegurando que este possui um duplo, feito de outra matéria, que permanece após a morte. Esse duplo, por ser feito de matéria sutil, pode penetrar no corpo de outros seres para se relacionar com os vivos. Outras religiões acreditam que o corpo é mortal, mas habitado por uma entidade - espírito, alma, sombra imaterial, sopro - que será imortal se os decretos divinos e os rituais tiverem sidi respeitados pelo fiel. No caso do judaísmo e do cristianismo, além disso, a imortalidade também depende de o gênero humano ter recebido o perdão divino pelo pecado dos ancestrais, Adão e Eva.
Por acreditarem firmemente numa outra vida, os adeptos das religiões realizam ritos funerários, encarregados de preparar e garantir a entrada do morto na outra vida. O ritual fúnebre limpa, purifica, adorna e perfuma o corpo morto e o protege com a sepultura. Pelo mesmo motivo, os cemitérios, na maioria das religiões e particularmente nas africanas, indígenas e ocidentais antigas, são lugares consagrados, campos-santos, nos quais somente alguns, e em certas condições, podiam penetrar.
Em algumas religiões, como nas do Egito e da Grécia antigos, a perfeita preservação do corpo morto, isto é, de sua imagem, era considerada essencial para que ele fosse reconhecido pelos deuses no reino dos mortos e recebesse a imortalidade. No caso dos egípcios, havia uma instituição social, a Casa dos Mortais, encarregada de embalsamar os cadáveres, preparando-os para a preservação na vida futura. No caso dos gregos, era preciso que o corpo morto permanecesse inviolado para que dele nascesse sua imagem viva e inteira, sua sombra, pois era esta que partia para o outro mundo e se tornava imortal.
Nas religiões do encantamento, como a grega antiga, as africanas e as indígenas das Américas, a morte é concebida de diversas maneiras, mas em todas elas o morto fica encantado, isto é, torna-se algo mágico. Em algumas, o morto deixa seu corpo para entrar num outro e permanecer no mundo sob formas variadas;ou seu espírito deixa seu corpo para permanecer no mundo, agitando os ventos, as águas, o fogo, ensinando os mais velhos, escondendo e achando coisas. Em outras, o morto tem sua imagem ou seu espírito levado ao mundo divino e ali desfruta das delícias de uma vida perenemente perfeita e bela; se, porém, suas faltas terrenas foram tantas e tais que não pôde ser perdoado, sua imagem ou espírito vagará eternamente pelas trevas, sem repouso e sem descanso.
O mesmo lhe acontecerá se os rituais fúnebres não puderem ser realizados ou se não tiveram sido realizados adequadamente. Esse perambular pelas trevas não existe nas religiões de reencarnação. Nestas, em lugar dessa punição, o espírito deverá ter tantas vidas e sob tantas formas quantas necessárias à sua purificação, até que possa participar da felicidade perene.
Nas religiões da salvação, como é o caso do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, a felicidade perene não é apenas individual, mas também coletiva, São religiões em que a divindade promete perdoar a falta originária, enviando um salvador que, sacrificando-se pelos pelos humanos, garante-lhes a imortalidade e a reconciliação com Deus.
Como a falta ou queda originária atingiu a todos os humanos, o perdão divino e a redenção decorrem de uma decisão divina, que deverá atingir a todos os humanos, se acreditarem e respeitarem  a lei divina escrita nos textos sagrados e se guardarem a esperança na promessa de salvação que lhes foi feita por Deus.
Nesse tipo de religião, a obra de salvação é realizada por um enviado de Deus - daí vêm, do hebraico, messias, e, do grego, cristo. As religiões da salvação são messiânicas e coletivas. Um povo - povo de Deus - será salvo pela lei e pelo enviado divino, que vem realizar a esperança de felicidade perene no mundo, após sofrimentos profundos, por meio da regeneração, purificação e libertação dos seres humanos. A essa esperança é dado o nome milenarismo.
Críticas à religião: As primeiras críticas à religião feitas no pensamento ocidental vieram dos filósofos pre-socráticos, que criticaram o politeísmo e o antropomorfismo dos deuses. Em outras palavras, afirmaram que, do ponto de vista da razão, a pluralidade dos deuses é absurda, pois a essência da divindade é a plenitude infinita; portanto, não pode haver senão uma única potência divina.
Declararam também absurdo o antropomorfismo, que atribui aos deuses qualidades e propriedades humanas num grau superlativo. A razão, porém, sabe que eles devem ser supra-humanos, ou seja, as qualidades dos seres divinos não podem confundir-se com as da natureza humana. Essas críticas foram retomadas e sistematizadas por Platão, Aristóteles e pelos estoicos.
Outra crítica à religião foi feita pelo grego Epicuro e retomada pelo latino Lucrécio. A religião, dizem eles, é fabulação ilusória, nascida do medo da morte e da natureza. É superstição.
No século XVII, o filósofo Espinosa retoma essa crítica, mas, em vez de começar pela religião, começa pela superstição. Os humanos, diz ele, têm medo de que males lhes aconteçam e esperança de que bens lhes advenham. Movidos por essas duas paixões, não confiam em si mesmos nem nos conhecimentos racionais para evitar males e atrair bens. Passional ou irracionalmente, julgam que a origem dos males e dos bens encontram-se em forças caprichosas, como a sorte e a fortuna, e passam a acreditar nelas como poderes que os governam arbitrariamente. Essa crença é a superstição.
Para alimentá-la, criam a religião e esta, para conservar seu domínio sobre os homens, institui o poder teológico-político. Assim, sacerdotes e teólogos fazem crer que as leis políticas não foram instituídas pelos seres humanos, mas pela vontade de Deus ou dos deuses. Esta, por sua vez, teria sido revelada apenas a alguns, que, por isso, têm o direito divino de comandar os demais.
Nascida do medo supersticioso, a religião está, portanto, a serviço da tirania. Esta é tanto mais forte quanto mais os homens forem deixados na ignorância da verdadeira natureza de Deus, das verdades causas de todas as coisas e da origem humano do poder político e das leis.
A crítica filosófica à religião concentrou-se, pouco a pouco, na afirmação da diferença entre a crença numa divindade sobrenatural que impõe leis aos seres humanos e o conhecimento racional da essência de Deus. Isso levou, nos séculos XVII e XVIII, á ideia de uma religião não revelada, não sobrenatural, chamada deísmo.
Voltando-se contra a religião revelada e institucionalizada como poder eclesiástico e poder teológico-político, os filósofos afirmaram a existência de um Deus que é uma força ou uma energia inteligente, imanente à natureza, conhecido pela razão e contrário à superstição.
observamos, portanto, que as críticas à religião voltam-se contra dois de seus aspectos: o encantamento do mundo, considerando superstição, e o poder teológico-político institucional, considerado tirânico.